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Ler em texto simples

DEGRAU

Curadoria · Edição 02

Agosto de 2026

vá procurar o que caiu da mão. refazer sozinho o caminho olhando pro chão.

Imagem ilustrativa

◆ Gabriella Ibrahim

Os gregos que governaram o Egito depois de Alexandre tiveram uma ideia: juntar, num prédio só, em Alexandria, todos os livros do mundo. Não os melhores, não uma boa seleção. Todos. A história conta que os navios que atracavam no porto tinham seus rolos recolhidos e copiados, e que o dono levava de volta a cópia e era o original que ficava na cidade. Funcionou por bastante tempo. Alexandria virou o lugar onde morava o que a humanidade sabia e tudo ficava sob os cuidados dos melhores estudiosos vivos.

Alexandria

Todos os livros do mundo, num prédio só. Imagem ilustrativa

Muitos aqui já sabem como isso termina... em fogo. Foi um incêndio bem famoso, séculos de conhecimento viraram cinza numa noite só.

Só que, infelizmente, não foi o fogo que destruiu o conhecimento.

Cem anos antes do fogo, Ptolomeu VIII brigou com o irmão pelo trono e resolveu castigar quem tinha ficado do outro lado. Expulsou os estudiosos estrangeiros da cidade. O bibliotecário-chefe, que era o posto mais alto que um intelectual podia ocupar naquele mundo, fugiu para Chipre. O cargo virou moeda de troca política, entregue a quem devia favor.

O dinheiro foi minguando e quando o fogo de Júlio César alcançou o porto, a biblioteca já vinha se apagando há quase um século.

Alexandria não foi queimada. Ela perdeu o valor antes disso.

Fiquei uns dias com essa história na cabeça e o que me incomodou não foi a perda. Foi entender por que a versão do incêndio é a que sobreviveu. Ela é confortável. Incêndio tem data, tem culpado, tem inimigo. A versão real é bem pior, porque nela não existe vilão. Existe gente que estava ali todo dia, decidindo não olhar, achando que dava para deixar pra depois. E, no fundo, achando que era reversível.

Isso vale para tudo que importa. O que é valioso quase nunca se perde de uma vez.

Frase âncora Perde-se aos poucos, em doses que parecem inofensivas justamente porque são pequenas.

E vale ao contrário também: nada que importa se constrói de uma vez.

Autoridade, repertório, uma tese própria sobre o próprio mercado, nada disso nasce de um dia para o outro. Nasce de atenção contínua e isso não é qualquer um que consegue.

Quem precisa do digital para trabalhar conhece essa disputa por dentro. Estar lá não está em questão, é assim que se ganha visibilidade e é assim que as pessoas certas chegam até você.

O que muitas vezes não entra na conta é o custo de estar lá. Conviver com o melhor recorte da vida dos outros. A dúvida sobre merecer o lugar que se ocupa, que já tem nome e que atinge gente muito mais preparada do que costuma admitir. E, acima de tudo, a sensação de que é preciso falar mais alto, porque o ambiente inteiro parece premiar volume.

E estamos vivendo isso nesse momento: a guerra pelo volume.

Herbert Simon avisou sobre isso lá em 1971, quando nada disso existia.

Quanto mais informação circula, mais escassa fica a atenção, porque é dela que a informação se alimenta. Se atenção é o recurso escasso, gritar é a estratégia óbvia. E gritar funciona, até todo mundo estar gritando.

O que se queima nesse processo não é conteúdo. É profundidade. É critério próprio. É a capacidade de sustentar um raciocínio que não cabe em quinze segundos.

No sábado eu fui ao show do Tiago Iorc, na turnê de dez anos do Troco Likes . Achei que ia a um show e voltei com este texto quase pronto na cabeça.

Vamos começar pelo palco. Ele colocou ali uma tela vertical gigante, na mesma proporção da tela de um celular. O álbum é de 2015, foi o primeiro dele todo em português e rendeu o primeiro Grammy Latino da carreira. E o nome, Troco Likes , já era o diagnóstico do tema que viria.

A música que abriu o show, uma das que mais gosto, fez algumas perguntas retóricas: “quando foi, quando foi a última vez que você saiu sem ninguém notar, sem ninguém te reparar?”

E continua: “onde foi a última vez que você se deixou livre, sem se retocar, sem se Instagramear?”

Depois: “quando foi a última vez que você quis escutar, silenciar?”

E aí veio Alexandria , que é de onde saiu o título deste texto.

Primeiro o diagnóstico do ambiente, quase clínico de tão exato:

“gente demais, com tempo demais, falando demais, alto demais, vamos lá atrás de um pouco de paz.”

Alexandria · Tiago Iorc e Humberto Gessinger

Depois o custo das relações que a gente aceita nesse ambiente:

“brincando com o fogo pela atenção, perdi a razão com quem me deu razão.”

Repare que, na letra, quem faz a pessoa se perder não é quem a contradiz. É quem só concorda. É o palco, não o interlocutor.

Então vem a instrução, que eu adotei como título: “vá procurar o que caiu da mão. Refazer sozinho o caminho olhando pro chão.”

Sozinho, porque nenhuma multidão vai te ajudar a achar o que só você sabe que perdeu. Olhando pro chão, que não é desânimo, é o gesto de quem para de medir com o olhar dos outros e volta a olhar o terreno concreto que é seu. Olhando pro chão me lembra também a frase “olhe por onde anda”, que na minha cabeça soa como um pedido pela racionalidade.

E o verso que fecha tudo:

a gente queima todo dia mil bibliotecas de Alexandria, a gente teima, antes temia, já não sabe o que sabia. Alexandria · Tiago Iorc e Humberto Gessinger

Todo dia. Não numa noite. É a mesma correção que a história tinha nos dado no início dessa curadoria.

Naquele mesmo dia, entrei numa livraria para comprar um presente e saí com a melhor sensação do mundo. Uma capa me parou: O Dom da História , de Clarissa Pinkola Estés, com o subtítulo “uma fábula sobre o que é suficiente”.

Eu gosto de fábula, e “suficiente” é uma palavra que anda me perseguindo, então sentei e li o livro inteiro (de, aproximadamente, 40 páginas) ali mesmo.

Uma das histórias é a de um casal muito pobre, numa aldeia arrasada pela guerra. Eles não tinham nada, exceto dois bens. Ela, o cabelo, tão longo que tocava o chão quando solto. Ele, um relógio de bolso antigo, herdado do avô. Chega a data de dar presente e nenhum dos dois tinha dinheiro. Então ela vende o cabelo para comprar uma corrente para o relógio dele. E ele vende o relógio para comprar um pente para o cabelo dela.

Cada um entregou o que tinha de mais precioso para comprar o acessório daquilo que o outro tinha acabado de perder.

Uma corrente sem relógio. Um pente sem cabelo. E o desfecho não é triste, é o contrário. Eles riram. Porque a troca revelou que o suficiente nunca esteve nos dois bens. Estava na disposição de dar o próprio tesouro pelo outro.

Eu li isso e enxerguei o meu trabalho na cena. Porque esse é um erro que eu vejo com frequência: vender o tesouro para comprar o enfeite do tesouro. Queimar profundidade para comprar visibilidade para a profundidade. Sacrificar o tempo de estudar, de pensar, de fazer bem-feito, tudo em nome de aparecer falando sobre estudar, pensar e fazer bem-feito.

No fim sobra o pente, e não sobra o cabelo.

Percebem que Ptolomeu VIII fez a mesma troca? Ficou com o prédio e perdeu os estudiosos.

E aqui a fábula encontra uma coisa que me aconteceu em julho.

Este ano eu tirei férias pela primeira vez para ficar com a minha filha nas férias dela. Não foi descanso, porque criança de quatro anos não deixa ninguém descansar, mas foi um exercício honesto de avaliação. Quinze dias fora geram prejuízo para a empresa, isso é verdade e não adianta romantizar. Só que é prejuízo recuperável. Quinze dias de uma criança de quatro anos não voltam. Ela amadurece e muda um pouco a cada dia, e aquele dia específico não fica esperando eu ter uma agenda melhor.

Repare que é a mesma moeda da fábula, na direção contrária. O casal entregou o insubstituível para comprar o substituível, e teve sorte de a lição chegar junto. Eu entreguei o substituível, quinze dias de faturamento, para ficar com o insubstituível. É a mesma decisão, e o que separa uma da outra não é generosidade nem coragem, é saber o que dá para reconstruir depois.

Um dos programas daquelas férias, só nós duas, foi o cinema. Fomos ver a Moana. Logo no comecinho do filme a avó da Moana canta uma frase que eu não esperava levar para casa:

“a vila me acha louca, diz que eu sonho até demais, mas quem sabe ser feliz não volta atrás.”

Seu Lugar · Moana, live-action de 2026

Numa primeira leitura, isso contradiz tudo o que eu disse até aqui. Se ninguém volta atrás, por que refazer o caminho olhando pro chão?

Passei alguns dias com essa contradição aparente até entender que são dois movimentos diferentes.

Voltar atrás é desfazer a direção. É reabrir a decisão já tomada toda vez que ela fica difícil. Foi disso que eu falei no mês passado, quando escrevi sobre Cortés afundando os navios : o gesto não comprava coragem, comprava silêncio, tirava da mesa a pergunta sobre voltar. A avó de Moana está sugerindo que ela recuse exatamente isso.

Refazer o caminho é outra coisa. É seguir na mesma direção e ir buscar o que ficou pra trás no percurso. O que você sabia fazer muito bem e parou de fazer porque não performava. O assunto que você estudava com prazer e abandonou porque não virava post. O jeito de escrever que era seu antes de você aprender o que “funciona”. Isso não é retrocesso.

E não dá para fazer no meio do barulho, porque no barulho você não escuta o que é seu.

Foi fazendo esse inventário que eu entendi o que a palavra “suficiente” estava tentando me dizer. Eu tenho uma lista grande de coisas que quero conquistar: viagens, bens, a minha casa do jeito que eu sempre sonhei, a obra do meu escritório, o segundo filho num momento mais leve de trabalho...

Nenhuma delas sai da lista depois desta reflexão.

Mas do outro lado o que já tenho é: um casamento com cumplicidade de verdade, uma filha saudável e inteligentíssima, meus avós vivos e presentes o bastante para ensinar valores à bisneta, domingo de família com vinho e barulho de gente rindo. Não é uma lista “só” de gratidão, embora eu seja muito grata.

Mas é uma lista de itens não recuperáveis, e foi assim que eu passei a olhar para ela.

Porque suficiente não é teto. Se fosse, seria só um jeito elegante de parar de querer.

Suficiente é chão.

É o piso que impede que você troque o insubstituível pelo enfeite dele quando o barulho aumenta e a comparação aperta. Quem não sabe o que já basta aceita qualquer negócio, porque tudo parece urgente e tudo parece indispensável.

E é por isso que aquele verso resolve as duas coisas de uma vez.

Olhar pro chão é procurar o que caiu da mão,

e também reconhecer o piso do que já é suficiente.

Se eu tivesse que transformar isso tudo em princípios

seriam estes.

quatro, e o último é o mais operacional de todos.

01 Barulho não se vence com volume.

Se vence com diferenciação, que exige profundidade, que por sua vez exige um tempo considerável sem plateia. Quem nunca sai do palco não tem quando construir o que vai dizer nele.

02 Faça o inventário do que caiu da sua mão.

Não o que falta aprender, que é a pergunta confortável. O que você já tinha e largou no caminho por não render aplauso imediato.

03 Desconfie de quem só te dá razão.

Palco não é relação, e concordância não é lealdade. Numa decisão difícil, quem só concordou não te sustenta.

04 Na hora de decidir onde colocar atenção, o filtro não é urgência, é reversibilidade.

O que você deixa de financiar com atenção, você perde, sem precisar de incêndio nenhum. A questão é saber o que dá para reconstruir depois e o que não dá. Ptolomeu VIII provavelmente achou que aquilo era reversível. Foi, por um tempo. Até não ser mais.

As indicações do mês

aqui tem gente.

duas este mês, e as duas são o eixo do texto.

01 · Escute

Troco Likes , de Tiago Iorc

Álbum de 2015 · turnê de dez anos

O disco é de 2015 e envelheceu para melhor, o que é raríssimo em música que fala do próprio tempo. Comece por duas faixas. Alexandria , escrita com Humberto Gessinger, que dá o verso que virou título deste texto e a imagem que sustenta tudo, a de que o que se perde, se perde aos poucos e com a nossa participação. E Sol Que Faltava , que faz a pergunta mais incômoda do disco, sobre a última vez que você saiu sem ninguém notar.

Ouça as duas inteiras, sem fazer outra coisa junto. São músicas que pedem exatamente aquilo de que falam. Se a turnê passar pela sua cidade, vá. A tela vertical no palco vale a ida.

Ouvir no Spotify Letra de Alexandria Letra de Sol Que Faltava

02 · Leia

O Dom da História

Clarissa Pinkola Estés · Editora Rocco

Quarenta páginas, uma tarde de leitura. Estés é psicanalista junguiana e a mesma autora de Mulheres que Correm com os Lobos , e aqui ela encaixa histórias umas dentro das outras, como bonecas russas, todas girando em torno da mesma pergunta: o que é suficiente.

Escolhi porque é um livro que não argumenta, narra, e por isso a resposta chega sem encontrar defesa no caminho. Leia num dia de pressa. É quando funciona melhor.

Editora Rocco

Fontes das referências factuais A ambição de reunir todos os livros do mundo e o relato antigo sobre os rolos recolhidos dos navios ( Britannica ); a expulsão dos estudiosos por Ptolomeu VIII em 145 a.C., a fuga do bibliotecário-chefe Aristarco para Chipre e a transformação do cargo em indicação política ( World History Encyclopedia ); o consenso de que a destruição foi um declínio gradual e não um único incêndio, incluindo o fogo de 48 a.C. ( National Geographic e Live Science ); a formulação de Herbert Simon sobre riqueza de informação e pobreza de atenção, no ensaio “Designing Organizations for an Information-Rich World”, de 1971 ( registro do texto original ); as letras e a autoria de “Alexandria”, com Humberto Gessinger, e de “Sol Que Faltava” ( Letras ); o álbum Troco Likes, de 2015, o Grammy Latino e a turnê de dez anos, com a tela vertical na proporção da tela de celular ( Billboard Brasil e Noize ); o livro “O Dom da História: Uma Fábula Sobre o Que é Suficiente”, de Clarissa Pinkola Estés, publicado no Brasil pela Rocco com tradução de Waldéa Barcellos ( Editora Rocco ). A história do cabelo e do relógio é o mesmo motivo narrativo de “The Gift of the Magi”, conto de O. Henry publicado em 1905 ( texto integral ). A letra de “Seu Lugar” é da versão brasileira do live-action de Moana, que estreou nos cinemas em julho de 2026 ( Letras ).

Gabriella Ibrahim, edição e curadoria.

Escute Leia Refaça o caminho

Até a próxima edição,

Gabriella Ibrahim

Edição e curadoria.

Se algo aqui te tocou, me conta qual foi. Eu leio todas.

DEGRAU

Um degrau por vez.

◆ Gabriella Ibrahim