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Material complementar · Aula 1

Boas-vindas: a virada do alvará digital

A aula de abertura mostra o instante em que a brincadeira de uma criança se transforma em trabalho, apresenta o caso que virou marco dessa discussão e desenha o mapa completo do curso, da origem da exigência do alvará à estrutura do serviço.

Curso Alvará Judicial no Ambiente Digital Professor(a) Gabriella Ibrahim Leitura 12 min
01Da brincadeira ao trabalho

A cena que explica por que este curso existe

A aula abre com uma cena, e vale a pena reconstruí-la com calma, porque ela é a âncora de tudo o que vem depois. Uma criança está sentada na sala de casa, brincando, fazendo gracinhas — coisas espontâneas, bonitinhas, do dia a dia de qualquer família. Em algum momento, alguém olha e pensa: que legal, vou filmar isso. O vídeo vai para as redes sociais e viraliza. E aí, de uma hora para outra, aquele ambiente muda: entram luzes, iluminação, gravação. A partir do momento em que aquilo funciona, precisa se transformar em rotina. Todo dia a criança tem que estar ali, naquela mesma cena, fazendo uma gracinha específica, algo que tenha que viralizar ou gerar repercussão dentro das redes.

“É exatamente essa cena que mostra o momento em que uma brincadeira saudável na vida de uma criança se transforma em um trabalho.”

Gabriella Ibrahim, em aula

O ponto central é o deslocamento: a exposição deixa de ser espontânea e passa a ser obrigação. E isso acontece, muitas vezes, de forma indireta, sem que os pais percebam que aquilo está se tornando algo obrigatório, necessário, que tem que estar sendo feito o tempo inteiro. Postar é tão natural — o filho fez uma gracinha, aquilo vai para as redes — que a virada passa despercebida dentro da própria rotina da família.

Conceito-chave
Da brincadeira ao trabalho

Quando a presença da criança nas redes deixa de ser espontânea e vira uma rotina obrigatória voltada a gerar retorno financeiro, ela se transforma em trabalho — mesmo que ninguém na família nomeie assim. É essa transformação que atrai a tutela do direito: sem uma proteção específica, a criança fica exposta e sujeita a danos emocionais.

Atenção

A virada costuma ser invisível para quem está dentro dela. Quem trabalha com internet sabe que a exposição contínua causa danos emocionais; quando ela vira obrigação para gerar retorno financeiro, pode prejudicar bastante a saúde física e mental de quem está envolvido. É exatamente essa relação que a legislação veio tutelar e proteger.

Na prática

Antes de pensar em prospectar e trazer clientes numa área, é preciso entender o motivo e confiar no motivo do próprio trabalho. A professora insiste nesse ponto: a ilustração vem antes de qualquer conteúdo técnico justamente para que o porquê da atuação esteja claro na mente do aluno.

02Caso real · 1ª Vara da Infância

O caso-marco: as oito travas de João Pessoa

Para dar concretude à ilustração, a aula apresenta o caso que foi um marco para toda a discussão dos alvarás judiciais para crianças e adolescentes no ambiente digital: uma decisão da 1ª Vara da Infância e Juventude de João Pessoa, na Paraíba, em que o juiz autorizou a atividade — mas condicionou a autorização a oito travas específicas.

Precedente · decisão judicial

1ª Vara da Infância e Juventude de João Pessoa/PB — alvará judicial concedido sob oito condições cumulativas de proteção do adolescente. Na leitura da professora, a decisão marca o momento em que uma situação que parecia natural nas redes sociais passa a ser efetivamente tutelada, com exigências específicas para poder existir na vida de uma criança ou adolescente.

As oito travas, uma a uma, conforme detalhadas em aula:

Presença dos pais

Ao menos um responsável presente em toda gravação, live, reunião com marcas, deslocamento ou evento. A criança nunca atua sozinha na atividade.

Dias e horários

Gravações e trabalhos ligados à presença nas redes apenas às sextas e aos sábados à tarde, sempre em contraturno escolar. Trabalho noturno completamente proibido.

Escola em dia · 85%

Frequência escolar mínima de 85% e notas satisfatórias, comprovadas por declaração escolar apresentada a cada período.

Cuidado editorial

O teor do conteúdo tem que ser infantojuvenil. Vedada qualquer exposição adultizada, sexualizada ou violenta.

Acompanhamento psicológico

Relatório de evolução psicossocial assinado, apresentado ao juízo a cada seis meses.

Poupança bloqueada · 60%

Mínimo de 60% da receita da atividade depositado em poupança do adolescente, bloqueada até os 18 anos.

Imagem e IA

Sem exclusividade abusiva sobre a imagem, nem uso perpétuo, descontextualizado ou sublicenciado.

Contratos levados a juízo

Qualquer contrato com cessão ampla de imagem, IA, deepfake, avatar ou voz sintética só vale com autorização específica do juiz — ou seja, volta ao juízo para nova autorização.

“Isso aqui é o Estado intervindo e começando a proteger essa situação das crianças e adolescentes em redes sociais.”

Gabriella Ibrahim, em aula
Na prática

Guarde essas oito travas como um mapa mental. Elas dão uma amostra concreta do tipo de salvaguarda que os juízes passaram a impor nesses alvarás — tema que o curso retoma adiante, quando tratar das salvaguardas do juiz e da estrutura do procedimento na Vara da Infância.

03Posicionamento

“Não existe concorrência”

Antes de entrar no tema de vez, a professora enfrenta a objeção que trava muitos advogados diante de uma área nova: será que vale a pena, se já tem tanta gente falando disso? A resposta dela é direta.

“Não existe concorrência. Não existe concorrência porque o mercado é fraco. A concorrência é baixa.”

Gabriella Ibrahim, em aula

O raciocínio é o seguinte: quem se dedica a aprender, a entender mais, a não pegar casos que desconhece só para aproveitar um hype — quem estuda de verdade e sabe como fazer antes de qualquer coisa — já está acima da concorrência e consegue um bom lugar dentro do mercado. A recomendação é não se preocupar com a concorrência e fazer o próprio trabalho.

E há um segundo ponto, sobre o tempo: o hype e as notícias vieram e estão acontecendo agora, mas este é um trabalho que vai perpetuar. A demanda não é um evento passageiro; por isso importa construir o conhecimento agora.

04Apresentação · advocacia elegante e estratégica

Quem ensina — e o que a professora acredita sobre a advocacia

A professora se apresenta em duas camadas: o que importa para o aluno (a bagagem profissional que sustenta o curso) e o que importa para ela (a história pessoal por trás dessa bagagem).

A bagagem profissional

Na camada pessoal, ela conta o que a move: é cristã, presbiteriana desde os 16 anos, e atribui toda a trajetória a Deus; é casada com Maurício, marido e sócio, com quem construiu tudo do zero; e é mãe da Laurinha, de quatro anos — que ela descreve como o motivo de acordar todo dia querendo fazer mais e ser melhor.

A tese do curso

“Eu acredito que um modelo de negócio jurídico, a advocacia, ela precisa ser elegante e estratégica.”

Gabriella Ibrahim, em aula

É por isso que o curso não se limita à técnica. Ele traz teoria, prática e materiais, mas também uma camada estratégica: aprender a olhar para essa nova área como oportunidade de prospectar novos clientes, reativar clientes antigos e aproveitar o momento de forma estratégica dentro do escritório. E a mentalidade não vale só para o alvará — o objetivo declarado é abrir a mente do aluno para qualquer outro serviço que surgir no meio do caminho.

05Contexto e cadeia normativa

Por que o tema explodiu agora

O tema ganhou uma urgência prática muito grande por uma sequência de acontecimentos. Primeiro, influenciadores começaram a ter contas suspensas nas redes sociais — a aula cita o caso da influenciadora Yasmin Castilho —, o que gerou um enorme burburinho: será que a minha conta vai ser suspensa? Em paralelo, a Meta passou a notificar perfis em que entendia haver algum tipo de exposição abusiva de crianças ou adolescentes. O resultado foi uma enxurrada de vídeos, todo mundo falando sobre o assunto e ninguém entendendo o que era para ser feito nem como.

Mas a discussão em si não é nova. Ela vem de muito antes e tomou proporção maior com a Lei Felca — o ECA Digital —, aprovada depois do vídeo viral do Felca e de suas repercussões. Vieram então o Decreto nº 12.880/2026 e a Resolução do CNJ nº 687/2026, publicada em 1º de julho de 2026, somados à fiscalização mais ativa das plataformas — que, na avaliação da professora, foi o ponto principal a gerar todo o burburinho.

A cadeia normativa em quatro camadas

A aula apresenta a visão geral da cadeia que sustenta a exigência do alvará — que será destrinchada na aula seguinte:

CamadaNormaPapel na exigência
1ECA, art. 149Base original do alvará: a competência da autoridade judiciária para autorizar, por alvará, a participação de crianças e adolescentes.
2Lei nº 15.211/2025O ECA Digital, a chamada Lei Felca: leva a proteção da criança e do adolescente para o ambiente das plataformas.
3Decreto nº 12.880/2026Regulamenta a matéria e, no art. 34, remete a exigência de autorização judicial ao art. 149 do ECA.
4Resolução CNJ nº 687/2026Publicada em 1º de julho de 2026: padroniza o alvará no país, tratando de estrutura, prazos, banco nacional, atuação do Ministério Público e salvaguardas.
Art. 149
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) — é a base original da exigência: o dispositivo que dá ao juiz da infância a competência para disciplinar, por alvará, a participação de crianças e adolescentes em determinadas atividades. Toda a cadeia posterior remete a ele. Texto oficial
Res. 687/2026
Resolução CNJ nº 687/2026 — publicada em 1º de julho de 2026, é a camada mais recente e a que padroniza o alvará judicial para a atividade de crianças e adolescentes no ambiente digital em todo o país. É a “nova regra do jogo” que o curso examina em detalhe nas próximas aulas. Texto oficial
Fundamento normativo

Cadeia completa: ECA, art. 149 → Lei nº 15.211/2025 (ECA Digital / Lei Felca) → Decreto nº 12.880/2026 (art. 34) → Resolução CNJ nº 687/2026. A aula seguinte percorre cada camada e mostra como elas se encaixam na exigência do alvará.

06O que chega ao balcão

As dúvidas reais que já estão chegando aos advogados

Com o burburinho, começaram a surgir dúvidas reais de clientes para advogados de todas as áreas — inclusive clientes antigos, de matérias completamente diferentes, preocupados em saber se cairiam nas notificações e suspensões relacionadas ao ECA Digital e à Resolução CNJ nº 687/2026. As perguntas que a professora viu se repetirem:

“A gente estava meio que no olho do furacão ali, sem entender o que a gente ia responder.”

Gabriella Ibrahim, em aula
Atenção

O mercado está cheio de notícias e posts sensacionalistas — inclusive de advogados — que assustam o público só para prospectar clientes. A professora se declara totalmente contra essa prática: o conteúdo técnico de qualidade é suficiente para prospectar, e há uma responsabilidade real em tudo o que se posta e divulga nas redes.

É desse cenário que nasce o curso: o tema é novo, cercado de dúvidas soltas, e a proposta é organizar o assunto com técnica, clareza e aplicação prática — que, nas palavras dela, é o mais importante.

07Da origem à prática

O que você vai aprender: o roteiro do curso

O curso está organizado em dois grandes movimentos: primeiro entender a exigência do alvará da origem à prática; depois, atravessar do processo ao negócio.

Da origem à prática

Do processo ao negócio

Na prática

Nem todo cliente que chega precisa de fato do alvará. Muitas vezes, o que ele precisa é de um termo de autorização de uso de imagem — documento que será importante numa possível notificação. Essa leitura de quem precisa do quê é parte central da camada de negócio do curso.

O gancho para a sequência: na próxima aula, a professora aprofunda a cadeia normativa — a legislação que sustenta a exigência do alvará, camada por camada.

08Para levar

Síntese da aula

O essencial em 8 pontos

  • A cena-âncora: a brincadeira filmada que viraliza e vira rotina obrigatória marca o momento em que a exposição da criança se transforma em trabalho — muitas vezes sem que os pais percebam.
  • O direito entra para tutelar essa relação: sem proteção específica, a criança fica exposta e sujeita a danos emocionais, físicos e mentais.
  • O caso-marco: a 1ª Vara da Infância e Juventude de João Pessoa/PB autorizou a atividade sob oito travas — presença dos pais, dias e horários, escola (85%), cuidado editorial, acompanhamento psicológico semestral, poupança bloqueada (60%), limites de imagem e IA, e contratos levados a juízo.
  • “Não existe concorrência”: o mercado é fraco e quem estuda de verdade, sem pegar caso desconhecido só pelo hype, fica acima da concorrência — e o trabalho vai perpetuar.
  • A tese do curso: um modelo de negócio jurídico precisa ser elegante e estratégico — técnica, prática, materiais e a camada de negócio, aplicável a qualquer área nova.
  • Por que agora: contas suspensas (caso Yasmin Castilho), notificações da Meta, Lei Felca (ECA Digital), Decreto nº 12.880/2026, Resolução CNJ nº 687/2026 (1º/07/2026) e fiscalização mais ativa das plataformas.
  • As dúvidas já chegaram ao balcão: preciso do alvará? a conta pode ser bloqueada? basta autorização dos pais? fotógrafo precisa? escola precisa? e se a Meta notificar? — e a resposta responsável é técnica, sem sensacionalismo.
  • O roteiro: da origem da exigência à prática (quem precisa, quem não precisa, notificações) e do processo ao negócio (procedimento, documentos, petição, salvaguardas, estrutura de serviços).